Bic e Compromisso Político

Thomas Hirschhorn *







x #04
Jan.06




Durante a minha exposição “Très grand Buffet” em Friburgo, alguém reparou que as obras das séries “Virus,” “Merci, Danke, Thank You” e “Les Larmes” tinham sido feitas com caneta esferográfica Bic. E essa pessoa perguntou porque desenhava eu com esferográficas Bic sendo a empresa Bic uma das patrocinadoras do político francês de direita Le Pen. Uma publicação oficial sobre o financiamento dos partidos políticos divulgou o facto. É nojento apoiar o Le Pen. Mas também é nojento colocar esse tipo de questões. Uso esferográficas Bic porque são baratas e encontramo-las em toda a parte, são simples e adaptam-se bem à minha mão. Gosto de usar esferográficas porque toda a gente as conhece e toda a gente as usa. É uma opção que se deve à sua universalidade, à sua neutralidade, à sua trivialidade. Para mim, trabalhar com esferográficas é uma opção política, artística. O que quer dizer que tento fazer o meu trabalho de artista politicamente usando essas canetas, por exemplo. É uma coisa em que acredito firmemente como artista. Por outro lado, se eu tivesse um emprego político provavelmente não usaria canetas Bic, mas quem é que as outras marcas de canetas patrocinam? Que importância têm as esferográficas, ou as canetas de ponta de feltro? Será que uma pessoa deve trabalhar com uma Mont-Blanc para ter a consciência tranquila e ao mesmo tempo fazer parte da elite que se distingue pelo material com que escreve? É obvio que não perco tempo com perguntas dessas, porque o que me interessa é trabalhar. Mas não quero que a minha energia seja controlada pela informação e por informadores conscienciosos que são simultaneamente políticos e impotentes. Consciência a mais mata a arte e consciência a mais consome toda a energia vital, impedindo que haja revolta. O que essas pessoas excessivamente conscienciosas esquecem é que eu travo uma batalha, estou empenhado num combate cuja vitória é incerta mas que seguramente não alcançarei escondendo-me por detrás de um compromisso político formalizado, verificável, que é conformista e nos faz sentir seguros. Quero lutar por mais igualdade e justiça, pela igualdade humana, pela justiça humana. Fazendo o meu trabalho politicamente, fazendo-me a mim mesmo perguntas politicamente – em vez de fazer perguntas políticas – e fazendo um trabalho político com significado.

 

Tradução de Sofia Gomes a partir da versão inglesa de Emmelene Landon do original francês


* Thomas Hirschhorn: (1957, Berna Suiça). A sua obra já foi apresentada em instituições como a tate Modern, o Centro George pompidou, o Art Institute of Chicago, o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, O Museu de Serralves, Porto, e eventos como a Bienal de veneza (1999) e a Documenta de kassel (2002). Actualmente vive e trabalha em Paris.

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